O nascimento de um monstro


Eu despertei ao suave som do vento frio, que fazia questão de amar incansavelmente os galhos secos e finos da arvore que ficava junto a janela de meu quarto, onde toda manha o sol se atrevia a entrar, sem minha devida permissão trazendo-me novamente ao caos que chamo de meu mundo, mais um dia. A cama quente e confortável me tira a vontade de levantar, juntamente com as correntes invisíveis e pesadas que a cama insistia em criar para impedir-me de sair e apreciar o demente mundo lá de fora. O cheiro forte do caffé invade por completo o meu quarto, fazendo com que a vontade de me levantar suma lentamente, fico deitado, me levando à uma realidade extraordinária e louca a qual eu criei para tentar me sentir melhor. O despertar traz novamente as lembranças ocultas da minha mente, uma atrás da outra, até parecem blocos sendo jogados contra uma parede, um a um empilhando-se acima da minha razão como se fossem caixas prestes a cair. O vermelho do sangue que escorre junto da faca, que ainda não me lembro o porquê, está ao meu lado na cama, o mesmo lado a qual uma poça de vermelha preenche as lembranças da última noite, lembranças essas que começam a surgir aos poucos, mas deixando um pequeno espaço para que a dor mais tarde venha me dominar. Meu corpo treme como se fossem bambus em meio a uma ventania, minha respiração fica ofegante e cada vez mais rápida, as risadas macabras e sem sentido começam a ecoar por toda a casa trazendo aos meus olhos uma lágrima de prazer, essa que escorre e alivia a pressão da minha cabeça levando-me por algum tempo, esse tempo o qual eu não sei, novamente para a realidade maldita a qual criei em minha vida.

Me levanto lentamente e sento a beira da minha cama bagunçada, tentando me lembrar o mínimo possível do motivo a qual meu corpo está coberto de prazer e sangue, o mesmo sangue que cria um rastro de dor e angústia, seguido de pequenos fios de cabelos ruivos que saem do meu quarto em direção a um par de pernas, de alguém que não tinha mais forças para se manter em pé. A dúvida entre se levantar e limpar toda a bagunça ou usar aquela faca e acabar ali mesmo, com a dor sufocante de anos a qual eu não consigo mais contar, dor essa que mata e ao mesmo tempo me liberta de uma realidade inútil em que todo esse lixo de humanos insiste em viver. Eu olho para minhas mãos ensanguentadas e me pergunto: até quando, até quando essa loucura vai existir? Abaixo minha cabeça pesada em direção aos meus dedos, esses encharcados da morte e sofrimento daquela garota. Tento pressionar meus olhos vazios e forçar as lembranças para acabar com essa angústia sufocante. Aos poucos, os batimentos do meu coração começam a se acalmar e liberar novamente os sentidos do que é real, mas isso dura poucos segundos, porém é nessa hora, que lembro de tudo o que fiz, após uma noite de prazer incansável de sexo com uma desconhecida, uma garota qualquer que eu trouxe de algum lugar. Então levanto o rosto e como se aquela garota linda de cabelos vermelho fogo, ainda estivesse ali. Então começo a acariciar lentamente seus cabelos não percebendo que tudo aquilo é apenas uma ilusão, talvez criada em minha frente, talvez criada em minha mente. Um ódio mortal me possui instantaneamente e um sorriso paranóico aparece suavemente em meus lábios trémulos, acompanhado de risos macabros, esses risos que trazem de dentro do escuro da minha alma, lembranças caóticas que transformam a minha respiração tranquila em algo ofegante que ao mesmo tempo se torna sombrio. As minhas mãos correm em direção ao seu pescoço se fechando ferozmente, como se ela branca e irresistível ainda estivesse ali, tentando fugir de mim de forma agressiva e descontrolada, pois lembrei que aquela noite a minha mente, em silêncio transformava a bela garota, naquela que um dia foi a causadora de todos os machucados que a vida me deu até hoje.


O silêncio oculto daquela realidade sufocante, logo quebrado pelo barulho do jornal da manha que fora jogado contra a minha porta. Lentamente meus passos me levam ao que muitos chamam de mundo real, então pego uma camiseta qualquer jogada pelo quarto e vou em vou até cozinha, trazendo comigo sem perceber um rastro de pegadas de sangue, olho em direção a mesa e vejo a única pessoa a qual um dia amei, ali sentada me esperando, engulo as lembranças pois sei que é mais uma de minhas alucinações. Enquanto a agua esta fervendo eu fico ali, ao lado do calor do fogão acesso e começo a analisar, dali mesmo, o corpo daquela garota, que não tinha absolutamente nada relacionado a vida, mas que agora esta ali jogado, parecendo uma peça de roupa suja qualquer. Os minutos começam a passar e sem perceber a minha mente é desligada do mundo, mas sem trazer pensamentos, nem lembranças, nem nada, com um piscar de olhos sou acordado pelo agudo e continuo som da chaleira, talvez gritando e me avisando que ainda estou vivo, sem pressa ou preocupação começo a preparar o meu caffé, forte e praticamente sem açúcar, como faço em todas as manhas ao acordar. Mas não pelo gosto, sim pelo único aroma capaz de me fazer sentir, nem que seja mínimo de amor a vida. Completo a minha caneca preta de 500ml e me sento ao lado da janela, essa que revela para mim um mundo antigo e cheio de lembranças, janela essa que me mostra o pequeno parque a qual passei a minha infância, que agora contém apenas um balanço velho de ferro enferrujado, que se balança lentamente com o vento suave da manha de domingo, trazendo uma paz, essa que me acalma e me faz fechar os olhos trazendo até mim lembranças quando ela estava aqui.


Greadville, 23 de abril de 2011, 8h30min


Poderia achar estranho acordar com essa pressão em minha cabeça, toda manha gritando incansavelmente como se alguém estivesse lixando meu cranio sem anestesia, mas tudo isso já esta quase virando rotina, acordo assustado todos os dias devido as lembranças rabiscadas que invadem os meus sonhos, transformando-os em pesadelos medonhos. É difícil ter uma manhã na qual eu não acorde sufocado e suando de medo, delirando por entre as imagens destorcidas do passado, essas imagens que insisto em criar e misturar com a realidade. Não sei como, não sei nem o porquê, mas desde que tudo isso começou a única coisa que eu quero é que acabe. Mas hoje talvez, por não ser uma data qualquer, foi diferente de todos os outros dias, não tentei controlar a dor que que sentia e nem mesmo fazer como sempre faço e perder o controle da razão, agredindo incansavelmente as minhas paredes. Pois hoje me levantei, peguei o cartão de um médico psicólogo, que há algum tempo atras, um amigo meu me deu caso eu concordasse em pedir ajuda profissional. Então fui em direção ao telefone, mas logo sabia que não seria fácil e realmente não foi, minhas mãos tremulas quase não conseguiram digitar os números e ao primeiro toque do telefone, minha respiração ficou pesada e minha visão começou a embaçar como se fosse uma janela em uma noite fria e chuvosa, já não conseguia ficar em pé e a luz começou a se perder a minha frente, eu praticamente já estava entregue ao medo, quando lá no fundo quase que inaudível uma voz suave e doce veio tentar me salvar – Bom dia – mas o pavor foi maior e me afundou mais ainda em direção a escuridão, não sei por que mas não conseguia responder e quando tudo parecia estar perdido, ela voltou e como que alguém salvando uma pessoa de um precipício e segurando forte em suas mãos, veio novamente me puxando para a luz – Bom dia, posso ajudar? - Mas não foi a voz, não foi a luz, foi o telefone do outro lado da linha sendo colocado no gancho que me trouxe a realidade novamente, por alguns minutos fiquei ouvindo aquele continuo e chiado som que se seguia entre meu ouvido e o telefone, tendo esperança que ela voltasse novamente, foi então que percebi que ela não iria mais voltar, pelo menos não agora.


Normalmente é nessa hora que percebo o quanto sou fraco e cheio de medo, tento evitar ao máximo de mostrar as pessoas o que se passa dentro de mim, que evito procurar ajuda, então tudo o que tinha a se fazer era respirar fundo e seguir a vida como em todos os dias, sozinho. Mas ainda estava ali parado e com o telefone em minha mão, algo me chamou a atenção, era um porta retrato com uma foto rasgada ao meio, uma foto que há algum tempo fora tirada em meu quarto, um tempo aonde eu podia sorrir sem medo. A foto continua apenas a minha imagem, essa a qual eu ignorava e insistia em completar aquele cabelo azul que passava por meu ombro, lembrando-me da garota que deveria estar ali ao meu lado na cama, garota essa que um dia me deu tudo o que eu mais precisava, me deu um sentido para viver, também a mesma que causou toda essa paranóia, que leva as minhas mãos tremerem quando imagino uma faca atravessando seu peito e fazendo o sangue escorrer por entre meus dedos, mesmo sabendo que nunca faria isso. Me perco no tempo em frente aquela foto, uma risada sinistra surge ao nada saindo de mim, ao sentir uma alegria enorme imaginando ela ali, sentindo a mais angustiante de todas as dores, por um breve instante sinto extasiado de prazer, esse mesmo que sinto ao ver a expressão das pessoas sofrendo. Coloco o telefone no gancho e procuro tomar um banho quente e relaxante, a fim de tentar esquecer um pouco as lembranças que eu trouxera até agora.







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